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Capa do livro pomba Gira, Minha Comadre, Saravá!
Pomba Gira não pede desculpas por ser o que é. E talvez seja exatamente isso que tanto incomoda. Neste livro em perguntas e respostas sobre Pomba Gira na Umbanda, você entende quem ela é de verdade, sem romantização e sem demonização: de onde vem seu nome, por que ela não é “Exu com saia”, e outras questões reais feitas por médiuns, iniciantes e curiosos. Doutrina, prática e história, para quem quer abandonar o preconceito e entender a Rainha das Encruzilhadas.​

Leia um trecho do e-book

Nota da Autora

Escrever sobre Pomba Gira é, antes de qualquer coisa, um ato de respeito.

Respeito por uma entidade que carrega, na própria existência, tudo aquilo que a sociedade aprendeu a temer nas mulheres: a liberdade sem pedido de licença, a sensualidade sem vergonha, a risada que não se contém, a palavra que não se engole. Pomba Gira não pede desculpas por ser o que é. E talvez seja exatamente isso que tanto incomoda.

Este livro nasceu de perguntas reais, feitas por pessoas reais: médiuns experientes que nunca pararam para pensar no porquê de certas coisas, iniciantes que chegaram ao terreiro cheios de dúvidas e sem coragem de perguntar, e curiosos que viram uma Pomba Gira trabalhar uma vez e não conseguiram mais esquecer.

Aqui você não vai encontrar romantização. Também não vai encontrar demonização. O que vai encontrar é Umbanda, doutrina, prática, história e, acima de tudo, verdade.

Pomba Gira não é o que o preconceito diz que ela é. Mas para entender o que ela realmente é, antes será preciso estar disposto a abandonar o que achava que sabia.

Rogativa às Pombogiras

Salve as Rainhas das Encruzilhadas, as que guardam os caminhos e conhecem os segredos da noite.

Salve as que dançam sem pedir permissão e riem sem explicar o motivo.

Salve Maria Padilha, rainha entre as rainhas, que abre as portas com um sorriso e fecha com um olhar.

Salve Maria Mulambo, que recolhe o que o mundo jogou fora e transforma em força o que era abandono.

Salve Sete Saias, que gira e não para, porque o movimento é a sua natureza.

Salve Maria Navalha, precisa e certeira, que corta o que precisa ser cortado sem hesitação.

Salve todas as Pombogiras, as das estradas e das almas, as dos cemitérios e das encruzilhadas, as que trabalham na luz da vela vermelha e as que velam em silêncio sobre os seus.

Que vossas gargalhadas afastem o que é baixo. Que vossas saias varram o que é pesado. Que vossas rosas perfumem os caminhos de quem vos busca com o coração limpo.

Saravá, Comadre!

De onde vem esse nome?

O nome causa estranheza logo de início.

Pomba: uma ave associada à paz, à pureza, ao Divino Espírito Santo no imaginário cristão.

Gira: o nome das sessões da Umbanda, mas também o próprio movimento circular, a roda que gira.

Como essas duas palavras chegaram juntas para nomear uma entidade tão marcada pela força e pela transgressão?

A explicação mais aceita é que o nome tem origem em termos africanos dos povos bantos, como Mpambu Nzila, uma entidade ligada às encruzilhadas e ao trânsito entre mundos, cultuada em regiões do Congo e de Angola. Apesar do nome, não tem relação com a ave.

O que importa saber é que o nome carrega movimento. Carrega travessia. Carrega a ideia de algo que não se fixa, que circula entre mundos, que conhece todas as encruzilhadas porque já passou por todas elas.

Ela não é Exu com saia

“Pomba Gira é o feminino de Exu”. Essa é uma definição que se ouve muito nos terreiros. Ela não está errada, mas está incompleta. E pode confundir se for tomada ao pé da letra.

Pomba Gira e Exu pertencem à mesma corrente de trabalho. Ambos cuidam das encruzilhadas, ambos fazem a ponte entre o plano espiritual e o humano, ambos trabalham com os desejos, as vontades e os caminhos da vida. Nesse sentido, são energias que se completam.

Mas Pomba Gira não é simplesmente Exu com saia. Ela tem a sua própria identidade, os seus próprios arquétipos, a sua própria missão. Exu carrega com mais força a energia da vontade, o impulso, a ação, a abertura de caminhos. Pomba Gira trabalha com mais intensidade no campo do desejo, das relações, da autoestima e do poder pessoal.

Dizer que Pomba Gira é “o feminino de Exu” é apressado demais. É como dizer que Iansã é “o feminino de Xangô” só porque os dois trabalham com a tempestade. Uma coisa é serem complementares. Outra é serem a mesma coisa.

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