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Veladouro é uma cidade pequena, onde todo mundo anda com destino certo e horário combinado. Até Camila chegar.

Leia o primeiro capítulo

O calor entrava pela janela sem pedir licença, daquele jeito que só o verão de Veladouro sabia fazer, pesado e parado, sem vento nenhum para fingir que estava ajudando. Laura chegou cedo, como sempre, ocupando a carteira do meio, que era a dela desde o primeiro ano, nem na frente nem atrás, num lugar que não chamava a atenção de ninguém. Ao lado, Patrícia já falava sem parar sobre as férias, sobre o primo que veio de fora, sobre uma sandália que viu numa revista. Laura respondia com o mínimo necessário para parecer presente.

 

A professora ainda não tinha chegado quando a porta abriu. Uma menina entrou, parou um segundo no batente como quem mede o terreno, e depois caminhou até a mesa da frente, onde normalmente ninguém queria sentar.

 

Calça jeans desbotada, justa sem ser calculada, camiseta branca simples com a gola levemente aberta. O cabelo escuro, comprido, preso de qualquer jeito numa trança frouxa que já estava se desfazendo, como se ela tivesse esquecido dele no caminho. O rosto era limpo, sem nenhum enfeite, pele morena de quem vive ao sol sem se preocupar com isso, sobrancelhas grossas que davam ao olhar uma seriedade que o resto do rosto contradizia. Os olhos eram diretos, do tipo que olha de frente sem intenção de intimidar, só porque não aprendeu a desviar. A boca era larga, com um canto levemente levantado, como se ela estivesse na iminência de um sorriso que ainda não decidira aparecer. Devia ter dezessete, dezoito anos, mas havia nela uma tranquilidade que a fazia parecer mais velha, não em seriedade, mas em segurança, na forma como ocupava o espaço sem se desculpar por isso. Quando atravessou a sala até a carteira da frente, Laura notou o jeito que ela andava; não era o passo apressado de quem quer chegar logo, nem o passo contido de quem tem receio de ser olhada. Era um andar cadenciado, levemente balançado nos quadris, sem afetação nenhuma, o tipo de andar que nasce solto e nunca aprendeu a se segurar. Como se o corpo dela tivesse feito as pazes com o espaço que ocupava num mundo em que, em Veladouro, poucas mulheres tinham coragem de ocupar assim.

 

Sentou, abriu a mochila, tirou um caderno.

 

Patrícia parou de falar no meio de uma frase.

 

Laura percebeu que estava olhando e desviou o olhar para a janela, para o muro branco lá fora, para o nada. Sentiu o calor de um jeito diferente por alguns segundos, mais no rosto do que no resto do corpo, e achou que era o sol batendo de lado.

 

A professora entrou logo depois, cumprimentou a turma com aquela voz de quem já estava cansada antes de começar, e fez o que a professora faz no primeiro dia: chamou os nomes na lista, organizou lugar, apresentou a nova aluna.

 

— Camila Ferreira, que veio da capital, vai estar conosco este ano.

 

Camila levantou dois dedos em aceno rápido, sem se levantar, sem discurso. Alguém na fileira de trás cochichou alguma coisa. Ela não reagiu, como se não tivesse ouvido ou como se não ligasse, e Laura não soube distinguir qual das duas coisas era.

 

Naquele dia, em nenhum momento Camila e Laura falaram.

 

Mas, na saída, quando a turma se dispersou pelo corredor e o calor lá fora era ainda pior do que dentro, Laura se pegou notando que Camila andava devagar, sem pressa de chegar a lugar nenhum, como se o ritmo da cidade não fosse o ritmo dela. Havia algo naquilo que Laura não soube nomear, só soube que era diferente de tudo que ela conhecia em Veladouro, onde todo mundo andava com destino certo e horário combinado.

 

Ela pensou nisso o caminho inteiro até chegar em casa.

 

Depois parou de pensar, porque não havia motivo nenhum para continuar pensando.

 

Ou, pelo menos, era o que ela dizia para si mesma.

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